terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Fachin libera gravação da propina para a Comissão de Ética



O ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal, decidiu entregar à Comissão de Ética da Presidência da República (CEP) a gravação feita por Joesley Batista, na qual o empresário negocia o pagamento de propina para o ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Pereira. O empresário gravou a fita para comprovar o pagamento de 6 milhões de propina para o ministro. A CEP instaurou processo ético e vai ouvir a íntegra da fita. A comissão poderá pedir o afastamento do ministro do governo Temer. A próxima reunião será em janeiro.

“O gabinete do ministro Fachin comunicou à secretaria da Comissão de Ética Pública que as fitas estão vindo em sua integralidade”, disse o presidente da CEP, Mauro Menezes. Ele ouviu o trecho no qual o empresário e o ministro discutem sobre cifras, divulgado por VEJA, mas afirmou que é necessário ouvir toda a gravação. “A fita tem indícios que sugerem ter havido ali uma negociação imprópria”, disse Menezes. Segundo ele, a gravação pode corroborar a delação de Joesley Batista. A CEP havia aberto o processo ético somente com base na colaboração premiada, antes da divulgação da conversa.

No encontro com Joesley, o ministro Marcos Pereira fala sobre os pagamentos: “ Eu não lembro mais a conta”, provoca o empresário. O ministro responde: “Meia cinco zero”. Marcos Pereira ressalta que já haviam se reunido cinco vezes. Joesley faz as contas da propina: “Uma… Cinco e quinhentos… Cinco vezes cinco… Cinco de quinhentos dá… Dois e quinhentos, tá”, diz Joesley, que continua somando: “Mais uma, dá mais quinhentos (…) “Três e seiscentos e cinquenta. Três seiscentos e cinquenta”. Joesley pede que o ministro inclua em suas anotações o valor do pagamento daquele dia: “Então, anota aí… Mais seiscentos e vinte”. O ministro concorda com os cálculos: “Seis, é isso aí… É isso aí”.

Joesley disse aos procuradores que pagou propina ao ministro Marcos Pereira, que é pastor da Igreja Universal, para conseguir um empréstimo de 2,7 bilhões de reais na Caixa Econômica Federal, ainda no governo Dilma Rousseff. Na época, o empresário foi procurado por Antônio Carlos Ferreira, vice-presidente do banco, que ocupava o cargo por indicação do PRB, o partido do ministro. Segundo Joesley, ele e o pastor se encontraram e combinaram a tramoia. A Caixa liberaria o empréstimo e, em troca, a JBS repassaria 6 milhões de reais ao pastor da Igreja Universal. A propina foi repassada em parcelas, sendo a última delas entregue nas mãos do ministro.

Na conversa, Marcos Pereira se mostra cauteloso. Em momento algum usa a palavra dinheiro: “Seiscentos e vinte ‘pessoas.” Joesley, no entanto, quer deixar claro que está falando de dinheiro e utiliza mais de uma vez a palavra “saldo”: “Três, três seiscentos e cinquenta… Mais seiscentos e vinte… Quatro duzentos e setenta”, diz Joesley. “Menos seis, dá quanto? O saldo. Um setecentos e trinta. Divide por três aí. Dividido por três… Um setecentos e trinta dividido por três”, continua Joesley. O empresário comemora: “Mais umas três vezes nós mata essa p. (se referindo à propina)!”.

Joesley ainda pergunta ao ministro se o “menino” da Caixa está firme. “O Antonio Carlos… Ele é bom, né?”, diz Joesley, fazendo referência ao vice-presidente do banco, Antonio Carlos Ferreira. “Mantivemos ele (…) Brigamos muito, né? Foi uma queda de braço com seu amigo baiano”, diz Marcos Pereira, sem esclarecer quem seria o amigo baiano. A CEP também vai receber a fita da conversa de Joesley com Antonio Carlos.





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