quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Desastre de Mariana: a vila de pescadores onde não se pode pescar



Quando o pescador Leone Carlos soube do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, escutou a notícia como mais uma manchete triste do jornal, sem saber que, dias depois, essa tragédia também seria sua. Leone vive em Regência, uma pequena vila de pescadores do Espírito Santo, a 120 km de Vitória, onde o Rio Doce desemboca no Oceano Atlântico. O local exato onde a onda de rejeitos proveniente da mineradora Samarco – após percorrer mais de 600 km durante 17 dias — se encontrou com o mar, matando peixes e paralisando as principais fontes de renda da comunidade. Desde então, a pesca no local foi proibida e os sonhos do pescador foram interrompidos.

"Foi o mesmo que cortar meus dois braços e as minhas duas pernas. Tenho 50 anos de pesca. Criei dez filhos pescando e hoje já não posso nem entrar no mar. Tinha uma renda de 5.000 reais e agora vivo de um cartão da Samarco de 1.200 reais. É a maior covardia do mundo", afirma. O pescador lamenta também que alguns companheiros de pesca que eram informais ainda não conseguiram nem sequer o auxílio emergencial fornecido pela mineradora, controlada pela Vale e a BHP.
Ausimara Passos e o marido, Seu Flôr, tiveram que fechar as portas da peixaria que tinham em Regência, no Espírito Santo. © Fornecido por Prisa Noticias Ausimara Passos e o marido, Seu Flôr, tiveram que fechar as portas da peixaria que tinham em Regência, no Espírito Santo.

Com a proibição da pesca, Ausimara Passos e o marido, Seu Flôr, tiveram que fechar as portas da peixaria que funcionava há décadas. “Sinto muita falta de como era tudo antes. Agora só vivo do auxílio financeiro, está tudo muito parado. É tanta dúvida sobre a qualidade da água que não sei se algum dia vamos voltar a pescar”, lamenta.

A mancha de lama que tomou conta do mar durante meses afastou turistas e surfistas das praias da vila. Maria de Lourdes, que é dona de uma sorveteria, viu a clientela despencar. "Depois da lama, Regência mudou muito. Meu filho mesmo fechou uma padaria por falta de turista e alguns donos de pousada também resolveram ir embora", conta.
Dano da dúvida

Passados dois anos da tragédia, a coloração do mar de Regência já praticamente voltou a sua normalidade, mas isso não foi o suficiente para trazer de volta os adoradores do local. A maioria dos moradores e turistas convivem com o prejuízo da dúvida, ninguém tem certeza da qualidade da água do local. Não há ainda estudos suficientes que consigam determinar quais são os impactos da lama na contaminação do mar e dos peixes e, por isso mesmo, a pesca está proibida por tempo indeterminado perto da foz do Rio Doce - da região de Barra do Riacho (Aracruz/ES) até Degredo/Ipiranguinha (Linhares) a pedido do Ministério Público. Apenas a pesca para fins científicos é permitida. O intuito é proteger a saúde da população acostumada a ter todos os dias um prato de peixe na hora da refeição.

"A questão é que o metal [da lama de rejeitos] não fica na água, ele rapidamente vai para o sedimento ou para os animais. Por isso, a água pode ser tratada e bebida normalmente. Mas não sabemos ainda as consequências para os animais e peixes", explica Andreia Azevedo, diretora de desenvolvimento insititucional da Renova - fundação criada para arcar com as indenizações, compensação e reparação dos danos causados pela tragédia. Segundo ela, várias análises estão sendo realizadas com diferentes tecidos e órgãos dos peixes.

Ao contrário do mar, no curso do rio da região a pesca não está proibida. O problema, no entanto, é que com a desconfiança sobre a contaminação as pessoas também estão receosas com os peixes de rio. "Ninguém mais quer saber de peixe. Essa lama cortou a nossa liberdade", diz o pescador Carlos Alberto Parentes.
Ecossistema marinho atingido

Nos últimos dois anos, uma série de análises feitas pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) — a partir de coletas durante oito expedições à região do oceano atingida pela lama — mostrou que o tsunami de rejeitos causou fortes danos ao ecossistema marinho. Os estudos, que tiveram o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) revelaram que as regiões de Barra Noca e Costa das Algas, onde há uma área de proteção ambiental, foram os mais atingidos.

O fluxo da lama, hoje concentrada no fundo do mar, continua ainda em direção norte do litoral e é considerado uma ameaça à saúde do banco de Abrolhos, no litoral sul da Bahia, a maior formação de recifes de coral do Atlântico Sul. Nessa área houve o registro de micropartículas de ferro, metal ainda muito presente em toda a área atingida, o que indica a necessidade de se manter o monitoramento da água Segundo o ICMbio, ainda há a preocupação de que os sedimentos, alojados no fundo do mar, possam estar sendo levados, lentamente, para a região pelo movimento das correntes marinhas.

A repórter viajou a convite da Fundação Renova





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