sexta-feira, 30 de junho de 2017

Professor trata 'homossexualismo' como 'aberração' em sala de aula, diz estudante



Um professor universitário foi denunciado por um aluno por comportamentos homofóbicos e misóginos, em João Pessoa. Segundo o estudante Diógenes Dantas, o professor Alírio Batista trata a homossexualidade - citada como “homossexualismo” nas aulas - como “perversão sexual” e “aberração”. Em nota, o professor negou ter expressado opiniões pessoais. No fim da tarde desta quinta-feira (29), a instituição informou que ele não faz mais parque do quadro ativo de professores.

Batista é professor da disciplina de medicina legal no curso de direito do Centro Universitário de João Pessoa (Unipê). Com medo de sofrer retaliações no resultado das provas, seis estudantes esperaram o período terminar e então protocolaram denúncias contra ele na Ouvidoria da faculdade.

“Não estou exagerando. O professor Alírio, ao tratar de ‘perversões sexuais’ em sua disciplina, classificou a homossexualidade (insistentemente gravada como homossexualismo, sufixo que remete à doença) como aberração, repetindo isso por diversas vezes ao longo de sua apresentação”, contou o estudante de direito Diógenes Dantas em postagem no Facebook.

Diógenes explicou que, no fim da aula, período aberto para dúvidas, pediu a palavra para informar ao professor que a aula ministrada estava mais de 20 anos atrasada, uma vez que a homossexualidade foi retirada da lista internacional de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 1990, e solicitar que ele informasse em sala que esse seria um conceito pessoal.

“Confesso que me faltam palavras para descrever o que senti ao enfrentar o peso do julgo dos outros alunos, que, abismados com o ocorrido, me dirigiam olhares aflitos, como se esperassem uma atitude da minha parte frente à sumária redução da minha condição humana para uma mera ‘aberração’”, comentou o estudante.

Porém, conforme disse o estudante, o professor afirmou que iria continuar definindo o termo da mesma maneira e sustentou que aquele era um conceito da Medicina Legal.

“Eu não sabia o que fazer, e a única atitude que enxerguei foi me retirar da sala de aula. Na próxima aula, meus colegas de turma comentaram que o professor, em sala, endossou ainda a discussão de que a origem de tal ‘doença’ seria ‘safadeza’ (sic), mas que ‘não gostaria de estender a conversa, pois essa gente era muito agressiva’”, publicou.

“Aberração, ‘caro mestre’, é esconder o seu preconceito no manto da liberdade de cátedra”, declarou o universitário.

Além das atitudes homofóbicas, Diógenes disse que o professor faz comentários machistas e misóginos e alunas tentam se matricular na disciplina em outro horário para evitar o docente. De acordo com o estudante, o professor chegou a aconselhar "que as alunas venham com roupas curtas e sentem nas cadeiras da frente, facilitando que ele olhasse quando elas cruzarem as pernas.


Professor diz que não houve opinião pessoal

Em sua página no Facebook, o professor Alírio Batista lamentou a repercussão de sua aula e afirmou que a classificação apresentada em sala de aula não é sua opinião pessoal. Ele ainda pediu desculpas a qualquer aluno que tenha se sentido ofendido.

"Sobre a polêmica em questão e sua repercussão na internet, tenho dois alentos: o primeiro, de saber que a pessoa que se afirmou ofendida pelo episódio em sala de aula deixou claro em seu texto que jamais manifestei qualquer opinião de cunho pessoal sobre o tema, que viesse a justificar alguns adjetivos criados por terceiros, a exemplo de 'homofóbico'", declarou o professor.

Ele ainda afirmou que opiniões dos alunos sobre ele se tratam, muitas vezes, de "lendas urbanas". "O segundo alento é o de que os demais pontos do “desabafo” feito pelo jovem na sua página de relacionamento não sejam provenientes de sua percepção ou vivência, mas do que veteranos teriam falado a discentes mais novos. Não acredito que esses comentários tenham sido feitos com maldade. Antes, atribuo-os às picardias estudantis tradicionalmente transmitidas nos corredores das instituições de ensino, aumentadas ano a ano", publicou.

Faculdade divulga nota

O Unipê divulgou uma nota oficial informando que o "docente não se encontra mais no quadro ativo de funcionários da Instituição". "Entre os valores da Instituição está a busca pela justiça, verdade, igualdade de oportunidades e o respeito ao pluralismo e à diversidade nas suas mais variadas formas", traz o texto.

A instituição tomou conhecimento do caso no dia 26 de abril. "Como resultado dessa denúncia, o Unipê imediatamente iniciou uma análise interna, seguindo todos os trâmites necessários para questões dessa natureza, inclusive com respeito à ampla defesa por parte do docente, reiterando os valores de justiça e igualdade de oportunidades de nossa Instituição, na medida em que se trata de um professor decano, com 52 anos de cátedra e 80 anos de idade", diz a nota.
Em material didático, professor diz que homossexuais podem 'praticar tipos diferentes de crimes por motivações ciumentas' (Foto: Reprodução/Alírio Batista) Em material didático, professor diz que homossexuais podem 'praticar tipos diferentes de crimes por motivações ciumentas' (Foto: Reprodução/Alírio Batista)


Apostilas falam em ‘aberrações’ e ‘perversões sexuais’

Em apostilas disponibilizadas pelo professor em seu site pessoal, o educador classifica o que ele chama de “homossexualismo” como “anomalia sexual”, na categoria “aberrações e perversões sexuais”, junto com a zoofilia, a necrofilia, o sadismo e o vampirismo, alegando que essas “facilmente levam a (sic) morte por homicídio”.

Em outro material, o “homossexualismo” aparece na lista de “aberrações ou desatinos sexuais”, ao lado da pedofilia e do estupro. “Pederastas ou lésbicas poderão, em nome do amor, praticar tipos diferentes de crimes por motivações ciumentas”, diz uma das apostilas disponibilizadas pelo professor Alírio Batista na internet.

De acordo com Diógenes, o material disponibilizado no site é utilizado em sala de aula e exigido nas provas das disciplinas. “Esse é o material indicado para estudo e, na prova, a gente tem que responder tudo que ele coloca no material”, explicou.






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